Ciência é a oficina do desassossego1. Eu explico: a sobrevivência da espécie humana é fruto da curiosidade e do desassossego. Nossa espécie sobreviveu muito tempo sem a ciência, mas não sem o desassossego. O é o motriz que nos leva a tentar entender a natureza e suas regras, nos induz a conjecturar e teorizar sobre as diferentes formas que percebemos a vida. Seja para o bem ou para o mal, afinal, somos humanos.
Ciência é o desassossego aliado à formulação da hipótese, a experimentação, a controles profiláticos de engodos, a coleta de dados, a alegria da descoberta, a dor das frustrações, ao labor da interpretação que finda na quimera de crítica-medo-coragem, tão peculiar aos cientistas, novos ou velhos no momento de divulgar suas observações.
A ciência prolongou a expectativa e qualidade de vida da espécie humana, agora temos tempo de sobra para continuarmos “desassossegadamente” a aproveitar a ciência e seu método na aventura de entender e melhorar universo em que vivemos, afinal, somos humanos.
1. O uso da palavra desassossego é culpa da obra essencial de Fernando Pessoa - Livro Do Desassossego. Editora. Assírio & Alvin, Lisboa. 2006.
A Petrobras, acossada pela mídia, que faz da CPI o tema político du jour (alternadamente com a mudança nas regras da poupança e o inexistente e ectoplasmático terceiro mandato), decidiu se defender em um blog. Alguns jornais reclamaram porque a empresa publicou no blog as perguntas enviadas pelos jornalistas, juntamente com as respectivas respostas (exemplo aqui). A ANJ (Associação Nacional de Jornais) acusou a Petrobras de intimidar os jornais. Parece que ficaram incomodados com a transparência, o que mostra a extensão do anacronismo da mídia brasileira.O Globo afirmou que a Petrobras criou o blog “para vazar informações obtidas pelos jornalistas” e que o blog “quebrou a confidencialidade de perguntas enviadas à assessoria de imprensa da estatal”. Ora, quem pergunta é porque quer saber. O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, entrevistado no Roda Vida hoje, explicou o motivo de tamanha transparência.
Em um dos posts, a Petrobras esclarece que um erro publicado pela Folha de São Paulo não foi corrigido, e admoesta o jornal, relembrando-o de que
A liberdade de expressão e o direito a opinião pressupõem responsabilidades. É a velha máxima: quanto maior o poder, maior a responsabilidade.
Independentemente de qualquer apuração desta ou qualquer outra CPI, é ótima a iniciativa da empresa. Fica muito mais difícil manipular a informação quando ela está disponível, sem cortes, para todos. O establishment da mídia vai reclamar e choramingar, mas tomaram um puxão de orelha doído e merecido.
Na dia do resultado grande parte do Instituto se reúne para saber a resposta vencedora e de lambuja assistem a alguma manifestação artística antes da resposta, a arte agradece.
O último desafio foi, o que é solidariedade e para que serve?
Então, respondi o que eu acho.
Solidariedade é uma virtude do ser humano que, em meio à tenta diferença, enxerga similaridade. Beneficio que é antagônico a qualquer forma de preconceito.
A solidariedade não é pontual, não cabe em medidas tampouco aferições e o seu produto final é imensurável: o bem estar e a alegria alheia.
Para que serve?
Para percebermos que estamos no mesmo barco naufragável, onde todos importam do convés a proa. Sendo assim, nossas atitudes e omissões contam.
Solidariedade é a ferramenta que nos redimensiona perante o universo, é a oportunidade de nos colocarmos na posição do outrem. Mostra o privilégio de sermos seres sociais e o melhor de tudo, a solidariedade nos faz promotores da justiça.
No dia que aprendermos que no reflexo da vida somos iguais, até Narciso será solidário.
Esse tal ser humano, que transita entre a ciência e a arte, esse ser investigador, que entendeu a química dos pigmentos sintéticos e fez Monalisa sorrir. O humano observador, que descreveu que entre a impressão do que se vê e a percepção do cérebro existe um momento ou um Monet.
No estúdio ou no laboratório, teorias e hipóteses são testadas por mentes e mãos inquietas; ciência na inquietude das mãos, arte na interpretação da visão e som.
Esses humanos cientistas ou artistas estão transformando informação em algo, ora com erros e ora com acertos, mas todos humanos. Para os gregos antigos, arte era tech, que deriva tecnologia. Quem sabe não leio um dia: o uso da “artiologia” ajuda humanos cientistas e artistas.
Do feto no útero á estrela no cosmo. Tudo tem ciência, tudo tem arte… desde que esse tal de ser humano tome parte.
Tenho uma dica para os humanos que gostam de arte, de ciência ou de ambos. A Casa da Ciência, no Rio de Janeiro, está com a exposição paisagens Neuronais, aberta de 5 de janeiro a 15 de fevereiro. Vá assistir e se deslumbrar! É aprendizado na certa e oportunidade de receber divulgação cientifica de qualidade. O rigor cientifíco nada tem haver com chatisse!
Clique aqui para ver o que a pesquisadora Suzana Herculano comenta sobre a exposição.
Circula pela internet uma lista com as 12 regras utilizadas pela imprensa internacional para redigir textos a respeito de conflitos no Oriente Médio. Com fina ironia, a jornalista Mona Baker, do britânico The Translator, exibe, em cada um dos itens de sua relação, os interesses das grandes agências de notícias e dos principais jornais do mundo ocidental ao tratar de conflitos como o que está em andamento na Faixa de Gaza.
Leia abaixo a relação:
1) No Oriente Médio são sempre os Árabes que atacam primeiro e sempre Israel que se defende. Essa defesa chama-se represália.
2) Os árabes, palestinos ou libaneses não têm o direito de matar civis. Isso se chama ”terrorismo”.
3) Israel tem o direito de matar civis. Isso se chama ”legítima defesa”.
4) Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isso se chama ”Reação da Comunidade Internacional”.
5) Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isso se chama ”Seqüestro de pessoas indefesas.”
6) Israel tem o direito de seqüestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente são mais de dez mil, 300 dos quais são crianças e mil são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter seqüestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades eleitas democraticamente pelos palestinos. Isso se chama ”Prisão de terroristas”.
7) Quando se menciona a palavra ”Hezbollah”, é obrigatória a mesma frase conter a expressão ”apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã”.
8 ) Quando se menciona ”Israel”, é proibida qualquer menção à expressão ”apoiada e financiada pelos EUA”. Isso pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência.
9 ) Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões ”Territórios ocupados”, ”Resoluções da ONU”, ”Violações dos Direitos Humanos” ou ”Convenção de Genebra”.
10) Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre ”covardes”, que se escondem entre a população civil, que ”não os quer”. Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isso se dá o nome de ”Covardia”. Israel tem o direito de aniquilar com bombas e mísseis os bairros onde eles estão dormindo. Isso se chama Ação Cirúrgica de Alta Precisão”.
11) Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso eles e os que os apóiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes Regras de Redação (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama ”Neutralidade jornalística”.
12) Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redação acima expostas são ”Terroristas anti-semitas de Alta Periculosidade”.
Agora que finalmente entreguei minha tese de doutorado, resolvi escrever algo sobre a crise financeira. Tudo o que vou dizer nesse texto é apenas a minha opinião.
BREVE HISTÓRICO I
Como chegamos na situação atual? No final dos anos 90 até o começo de 2000, vimos uma bolha no mercado financeiro, que começou com as empresas de internet e telecom, e se alastrou pelo mercado todo. Não foi a primeira e não será a última. Bolhas sempre ocorreram através dos tempos, atingindo desde o mercado de tulipas (sim, de tulipas) até o mercado imobiliário e de ações. O gráfico abaixo mostra a espetacular ascensão do mercado financeiro estadunidense nos últimos 80 anos. Espetacular não é exagero. Um investidor hipotético (e longevo) que tivesse investido U$1.000 em 1928 teria hoje, mesmo após as recentes perdas, aproximadamente U$34.000, o que sinifica um retorno total de 3300%. Ele teria tomado vários sustos. Por exemplo, de setembro para outubro de 1987, enquanto comemorava que seu investimento inicial já havia sido multiplicado por dez, ele perderia 23% em um mês.
A bolha dos anos 1990 não foi exatamente como qualquer outra. Enquanto nosso investidor esperou quase 60 anos para seu investimento ser multiplicado por dez, em apenas 13 anos(de 1987 a 2000) o mercado acionário sextuplicou de valor. Quando ficou claro que o mercado estava extremamente sobrevalorizado, os investidores mais espertos começaram a embolsar o lucro e vender as ações, e o mercado desabou. Em três anos, o mercado perdeu mais de 30%. E agora estamos vendo mais um capítulo parecido. No começo do novo milênio, os EUA pareciam prontos para uma longa recessão. Mesmo gastando bilhões em duas guerras, as taxas de juros nos EUA estiveram muito baixas, e o governo incentivou o consumo. Esse consumo de fato trouxe crescimento econômico, como o gráfico mostra. Do fundo alcançado em 2003 até o final do ano passado, o mercado praticamente dobrou de valor, e o padrão é assustadoramente parecido com o da bolha anterior. Porém, enquanto a bolha da internet foi criada pelo surgimento (e extrapolação das possiblidades de) uma nova teconologia, a bolha atual foi criada às custas de endividamento. O típico cidadão americano é hoje extremamente endividado. Eu recomendo esse texto, que mostra como a dívida americana tem aumentado, ao mesmo tempo em que a taxa de poupança está no nível mais baixo já observado. Só no mundo de Bizarro, como diz o texto, é que um governo pede para seus cidadãos consumirem mais supérfluos a crédito enquanto gasta com duas guerras. Os americanos fizeram uma grande festa nos últimos sete anos, comprando e construindo casas (o que criou a bolha imobiliária), carros, tvs de plasma e lattes no Starbucks, ao mesmo tempo em que gastavam com a sua extraordinária máquina de guerra. Só que agora a conta chegou.
BREVE HISTÓRICO II
A febre dos anos 2000 foram os famigerados derivativos. Derivativos em si não são ruins, são instrumentos legítimos que ajudam negócios a gerir risco. Por exemplo, um produtor quer se proteger de flutuações no preço dos insumos e, para isso pode usar derivativos (tipicamente contratos futuros) que garantirão o preço em uma data futura. Entretanto, os derivativos são usados hoje mais como veículos de investimento , com o único e exclusivo fim de se obter lucro. Derivativos mais complexos (e mais difíceis de apreçar) foram criados, e se chegou a um ponto em que o valor desses ‘produtos’ excede em mais ou menos 10 vezes o capital mundial (leia este texto sobre derivativos). Não é à toa que Warren Buffet diz que ‘não entende (os derivativos)’ e George Soros os chama de ‘armas financeiras de destruição em massa’. A crise atual começou quando a bolha imobiliária (criada e incentivada pelo governo através de crédito fácil e barato) começou a dar sinais de fraqueza. Muitos americanos que não tinham condições financeiras suficientes entraram em hipotecas aparentemente baratas (porém muitas com taxa variável). Quando a bolha estourou, muitos deles começaram a dar default (calote). O que realmente fez a crise se alastrar para o mercado financeiro foi o fato de bancos de investimento como o Lehman Brothers terem criado derivativos com base no valor dessas hipotecas, particularmente as chamadas hipotecas subprime, que são apenas hipotecas com maior probabilidade de calote. Esses bancos venderam esses derivativos para quem quisesse comprar, e muitos compraram absolutamente sem entender os riscos. Quando a bolha estourou, os bancos - que estavam extremamente alavancados - tiverem perdas gigantescas, o que levou alguns ao colapso.
A crise se alastrou pelo sistema bancário e os bancos pararam de emprestar dinheiro uns para os outros. Os governos estão tentando solucionar a crise injetando dinheiro nos mercados. As taxas de juros estão extraordinariamente baixas. O pacote deU$700bi dos governo Bush significa que os EUA vão se endividar ainda mais, aumentando a já astronômica dívida (a dívida dos EUA é em torno deU$10 trilhões). Perceba que os EUA se endividaram para evitar uma recessão nos últimos 7 anos, e agora estão tentando sair da crise se endividando ainda mais.
O mundo atual é extremamente dependente do sistema bancário. Se esse sistema ruir, o mundo literalmente para e, por isso, os governos estão acertadamente fazendo todo o possível para impedir isso. Nesse processo, primeiro o Reino Unido e depois os EUA nacionalizaram em parte de alguns bancos. Em outras palavras, estamos vendo um desgaste claro do paradigma atualde livre mercado, dos chamado princípios de trickle-down economy e Reagonomics, segundo os quais os governos devem deixar os mercado agirem mais ou menos livremente, e deve-se gastar dinheiro e reduzir impostos (particularmente dos mais ricos) para estimular a economia. Estamos indo para uma situação na qual a maior economia do mundo - na qual mais do que em qualquer outro lugar do mundo o mercado era soberano - socializa instituições financeiras.
Foi num onze de setembro que a democracia foi atacada. Um povo se viu privado de sua liberdade e sua vida não seria mais a mesma dali em diante. Homens armados atacavam um país. As conseqüências seriam enormes, países vizinhos sofreriam seus efeitos e alianças seriam feitas com o outro lado do oceano¹.
Um homem, portando um fuzil AK-47, se pronunciava a uma nação, com o conhecimento que seria perseguido e atacado. Mas sabendo ser o líder de seu povo, não se renderia. À sua volta, só se veria sua escolta armada, para proteger-lhe.
Houve um bombardeio, muitas mortes seguiriam.
Militarismo, controle da liberdade de expressão, opressão e incontáveis mortes iriam acontecer depois desta data. Prisões sem julgamento, tortura e execuções.
Em 11 de setembro de 1973, Salvador Allende, presidente eleito democraticamente no Chile, sofria um golpe de estado militar. Atacado pelas tropas de Pinochet, Allende e sua guarda GAP seriam encurralados no Palácio da Moeda, onde se pronunciaria pela última vez à nação. O Palácio foi bombardeado e invadido. Encurralado, o presidente do Chile dispensou sua guarda para que se rendesse. Sozinho, teria gritado: “Allende não se rende milicos culiados!” e teria usado o fuzil AK-47, presente de Fidel Castro, para se matar com um tiro na cabeça.
¹ Chile foi o único país da América Latina a dar auxilio logistico e de informações à Inglaterra, país aliado de Pinochet, na Guerra das Malvinas.
* [Post escrito originalmente em 11 de setembro de 2007]
Na parte 1, apresentei minha tese de que o conceito de apartheid é adequado para descrever a realidade dos grupos sociais sob a égide do Estado de Israel. Longe de um rótulo simplista, proponho um quadro gradativo, tendo por hipótese que cada grupo é segregado em proporção inversa à sua conformidade ao projeto identitário sionista. Seguindo esta escala, nosso primeiro caso de estudo foram os mizrahim, judeus de origem não-européia cuja cidadania, embora plenamente reconhecida pela iconografia oficial, se descobre condicionada a diversas formas de aculturamento.
Prosseguindo em gradação, visitaremos agora os principais grupos de israelenses não-judeus, buscando comprender sua condinção de cidadãos duplamente à revelia.
Drusos
Você conhece os drusos? Estes árabes monoteístas sustentam uma interpretação pra lá de alternativa do Corão, que exclui praticamente toda a doutrina do islamismo - a começar pelos cinco pilares - em favor de um misticismo neo-platônico que inclui a crença na reincarnação e proíbe o proselitismo. Contudo, pouco além disso é sabido, pois os segredos espirituais drusos são reservados aos iniciados, que compõem aproximadamente 1% da população (contando homens e mulheres em igual estatura). O código de conduta druso é fortemente baseado no conceito de lealdade, que se manifesta na proibição aos casamentos com não-drusos, a afiliação extrema ao clã e às lideranças religiosas e, em interpretações mais recentes, à total subserviência ao Estado.
Assim é que os drusos libaneses (300 mil) devem ser leais ao Líbano, os sírios (870 mil) à Síria, os jordanianos (20 mil) à Jordânia, os da Europa, África Ocidental, Austrália, América do Norte e América Latina - sobretudo no Brasil - (100 mil no total) devem ser bons cidadãos dos respectivos países; assim é também que os drusos de Israel (118 mil, ou 1.7% da população) aderiram plenamente ao Estado sionista, nos termos do que muitos chamam um “pacto de sangue”.
E não é mera retórica: segundo Zeidan Atashi, do Jerusalem Center for Public Affairs, em 1995 a renda de 33% dos drusos israelenses provinha de trabalho na IDF (Exército), na guarda de fronteiras, na polícia convencional e nas demais agências de segurança; levando em conta aposentados e soldados inválidos, a cifra sobe para 38%. O compromisso foi formalizado pelos líderes drusos quando insistiram junto a David Ben-Gurion que incluisse os drusos nas forças armadas: em 1949, como voluntários na “Divisão de Minorias” da IDF e, em 1956, no serviço militar obrigatório (há controvérsia quanto à aceitação dessas medidas entre os demais drusos, que não foram formalmente consultados). Desde então, centenas de soldados drusos pagaram a cota no dito pacto com a própria vida, nos diversos conflitos israelenses, certos da justa contrapartida em igualdade de acesso a serviços, benefícios e reconhecimento do Estado.
Pagaram, mas não levaram, segundo vozes como a do druso Said Naffaa, Membro do Knesset (Parlamento) : “Israel sempre viu os Drusos como uma espécie de animal domesticado; hoje esses animais, outrora dóceis, estão reagindo”. Com efeito, cresce a percepção entre os drusos de terem servido ao Estado para construir o estereótipo inofensivo do “bom árabe“, sem jamais receberem a igualdade esperada. Embora os 13 mil drusos de 1947-48 tenham sido poupados das expulsões em massa (ou, segundo a história oficial israelense, a “fuga voluntária”) dos palestinos, que possibilitaram a criação de Israel, nas décadas seguintes suas terras foram alvo de expropriações em favor de obras de infra-estrutura, zonas de preservação ambiental ou da instalação de colonos judeus. O último fenômeno, em particular, vem gerando crescente insatisfação, como mostra o levante na vila de Peki’in em outubro de 2007, provocado por uma invasão noturna da polícia atrás de ’suspeitos’. Peki’in vinha há anos sofrendo boicotes econômicos e conflitos fundiários com colonos, e os locais identificaram essa ação como parte do plano de expulsá-los da região gradativamente, promovido por sionistas radicais, segundo o ideal da “judeização da Galiléia”.
É bem verdade que a lealdade dos drusos foi em certa dose recompensada com melhora significativa em seus indicadores econômicos - perceptível pela sextuplicação de sua população durante os 60 anos de Israel - e sua inclusão política: mal ou bem, eles estão representados no Knesset e em várias agências do Estado. Entretanto, na medida em que um “bom árabe” é, e sempre será, antes de tudo um árabe, está claro que não estarão jamais livres das formas mais ou menos sutis de discriminação e intimidação em um estado sionista.
A foto acima registra o enterro de um soldado druso morto em combate na Faixa de Gaza. O cenário é o cemitério comum da vila drusa de Jatt e, não, um cemitério militar: oficiais do governo alegaram que um túmulo oficial da IDF naquela localidade prejudicaria a paisagem.
Drusos no Brasil: os drusos integram a eclética comunidade sírio-libanesa, concentrada mormente na região sudeste e sobretudo em São Paulo. O evento histórico mais notável associado aos drusos no Brasil é o assassinato com cinco tiros à queima-roupa, em 1964, do ex-ditador sírio Adib Shishakli, então aposentado em seu arrozal em Ceres(GO), pelo druso-brasileiro Nawaf Abu Ghazali. A cruel repressão aos drusos durante o governo de Shishakli (1949-54) teria sido o motivo, tanto da imigração de Nawaf para o Brasil dez anos antes, quanto de sua retaliação, digamos, drústica.
Quase não acreditei ao ler o projeto do deputado federal Celso Russumano (PP-SP) [aquele dos direitos dos consumidores, lembram?] de mudar a constituição e permitir o trabalho a partir dos 12 anos de idade.
Para não repetir toda a reflexão feita pelo jornalista Leonardo Sakamoto, os remeto para seu blog, onde há mais detalhes da proposta além de uma breve análise do que isso significa.
Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo.
Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.
As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, efendendo uma tese. Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte.
O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre - sempre - uma decepção.
Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo. São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós?
Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha. Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud?
Sic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto.
Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.
E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo.
Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser - tem de ser! - daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290. Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática.
Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto.
Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daí? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto?
Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor. Louvor para quem? Que exaltação, que encômio é isso?
E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza. Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora. É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria São Francisco de Assis. Em tese.
Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou:
- Não vou mais estudar! Não vou mais na escola.
Os dois pararam - momentaneamente - de pensar nas teses.
- O quê? Pirou?
- Quero estudar mais, não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida.
É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese.
Quero estudar mais, não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês? Pensando bem, até que não é uma má idéia!
Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história?
Dessa vez não foi o Deep Blue, o computador da IBM, que lançou ofensiva contra o enxadrista, mas sim um pênis voador controlado remotamente. Aparentemente, o episódio poderia ter sido engendrado por jovens pro-Kremlin (Kasparov é famoso por se opor a Putin).
O filme que produzi comissionado pela Current TV, sobre as relações da midia no Brasil com o Governo Aécio Neves finalmente vai ao ar. “Gagged in Brazil” estreou semana passada nos EUA e estréia dia 27 de maio agora no Reino Unido e na Irlanda, mas já está disponível no site da Current. O filme tem locução e textos em inglês, mas boa parte das entrevistas e depoimentos são em português.
No filme, através de entrevistas, depoimentos e exemplos, mostro como a imprensa ( TV Globo, Estado de Minas e TV Alterosa) se submentem as vontades de um grande anunciante ( O Governo de Minas Gerais ), e, assim, deixa de exercer o seu papel.
Os livros de história do futuro registrarão um território etnicamente diverso onde um grupo comandava o governo, as forças armadas, a academia, a comunidade de negócios, a indústria cultural, o sistema judiciário e praticamente todos os organismos do Estado - cujo objetivo institucional declarado era assegurar sua segurança e prosperidade em detrimento, necessariamente, dos demais. Às outras populações sob seu controle eram conferidos diversos matizes - inferiores - de cidadania. O grupo dominante gozava de todos os privilégios de uma democracia liberal à sua época, bem como inúmeras formas de subsídio estatal; os demais enfrentavam uma realidade diária de discriminação, controle e intimidação pelo aparelho de segurança, relocalização geográfica forçada e acesso flagrantemente desigual aos recursos naturais.
Milhões dentre estes não possuiam qualquer tipo de cidadania ou proteção jurídica: tinham regularmente suas casas destruídas e suas terras expropriadas pelo Estado, em favor da reocupação direta por membros do grupo dominante e suas obras de infraestrutura. Bairros eram segregados por muros e comunidades inteiras eram sitiadas por barreiras policiais, bloqueios de estradas e toques de recolher. A energia elétrica, a água e o acesso a hospitais eram instrumentos de controle. Embora violassem as leis internacionais de direitos humanos, todas essas ações estavam em acordo com a ordem jurídica local. O Estado viabilizava diplomaticamente seus crimes alinhando-se aos interesses geopolíticos regionais de uma superpotência mundial. Se você pensou na África do Sul até 1994, você também acertou.
É 2008, bem vindos a Israel
Criado em 1948 com a louvável incumbência de abrigar os judeus sobreviventes à guerra, o Estado de Israel é sem dúvida um dos maiores experimentos de engenharia social do século 20. Entre suas ambições estão construir uma democracia liberal industrializada de molde ocidental em uma região de economia essencialmente agrícola e cultura tribal, fixar milhões de imigrantes em terras exíguas já densamente povoadas e, sobretudo, forjar uma identidade nacional comum a todos estes, porém excludente dos habitantes tradicionais da região.Diante de tal quadro de contradições, é evidente que o projeto só poderia ser conduzido mediante brutal e contínua repressão apoiada em uma ideologia segregacionista. O preço dos inegáveis sucessos israelenses nos últimos 60 anos foi e segue sendo a subjugação cultural e militar dos demais povos da Palestina. Embora possua tons distintos, a situação aproxima-se em vários aspectos da que vigeu na Africa do Sul, o que justifica a meu ver o uso, também neste caso, do termo apartheid.
Judeus árabes e mizrahim
Na qualidade de ex-genro de um judeu árabe, sempre causa-me certa espécie quando alguém solta, por exemplo, que “árabes e judeus vêm matando-se há séculos”. Além de historicamente falsas e clichés, tais afirmações são logicamente inconsistentes (mesmo que se substituam “árabes” por “muçulmanos”, o que demonstra ignorância à parte), na medida em que aproximadamente 3,5 milhões de judeus no mundo hoje, dos quais 2,5 milhões em Israel, são provenientes do Oriente Médio, do Irã, do Norte da África, da Ásia Central, do Cáucaso e até do Paquistão e da Índia. Em particular, muitos destes mizrahim têm o árabe como língua materna ou familiar e identificam-se com a cultura árabe pelo menos tanto quanto com sua herança judaica.
No afã inicial de definir e em seguida de cristalizar uma identidade nacional israelense, a iconografia sionista tendeu a privilegiar o aspecto europeu e moderno da identidade judaica - em contraponto aos demais palestinos, supostamente incultos e primitivos. Não era portanto de se surpreender que os milhões de judeus de origem e cultura não-européia tenham participado do processo de construção de Israel em meio a um fogo-cruzado de identidades e estereótipos (o que ainda é bem melhor do que munição de verdade), normalmente encontrando-se em segundo plano ou resignando-se à própria “desarabização” como estratégia de assimilação social.
As diferenças porém não se restringem ao simbolismo: como reconhece a Professora Meyrav Wurmser, de orientação sionista e conservadora, a desigualdade econômica entre judeus ashkenazim (de origem européia) e mizrahim persiste ao longo dos 60 anos de Israel e, mesmo, aumenta significativamente com a política econômica neoliberal dos anos 90. Embora alguns expoentes mizrahim ocupem funções de prestígio no governo (inclusive a Presidência) e nas forças armadas, ao fim desta década 88% dos judeus de classe alta eram ashkenazim e 60% das famílias de baixa renda eram mizrahim. Em outro exemplo, apesar de constituirem metade da população de Israel, os mizrahim contam 4 vezes menos indivíduos com diploma de nível superior que os ashkenazim - e as políticas do Estado em nada contribuem para harmonizar o quadro, já que comunidades mizrahi freqüentemente recebem ensino de qualidade inferior ou restrito às vocações técnico-profissionais. A autora observa ainda, com alarme, que a insatisfação com o status quo discriminatório leva crescentes números de mizrahim a questionarem a legitimidade do projeto sionista.
Por outro lado, o poeta mizrahi de origem marroquina Sami Shalom Chetrit retrata a complexa crise de identidade gerada pela assimilação:
Acrid Memory
At the train station a rabid crowd
Doles out yellow ribbons and flags
asking passersby to pledge their blessings
and give thanks to the boys coming home.
As for me, I put down:
miserable, pitiful souls.
And a stinging memory comes back.
Homecoming memory.
Driving through the streets of a strange city at full tilt
(the streets there weren’t at all unfamiliar to us),
an old Arab stood by the side of the main road waving his cane
(now I think: that old man’s grandfather once must have stood
by the side of that very road and waved that very cane).
We stopped to find the meaning of his wave.
The old man bent toward me (in his eyes I saw that he didn’t get the essence of human adulation,
the quality of victory or failure), and spit a yellow
glob of saliva in my face before turning back on his way.
And on that day I was purified.
If only for a fleeting moment was I purified.
Embora sejam protegidos pela cidadania israelense e estejam do lado de dentro da linha identitária oficial, os mizrahim evidenciam uma primeira rachadura no edifício da construção nacional. Suas dificuldades, contudo, não são nem remotamente comparáveis às de outros grupos sociais marginalizados pelo Estado de Israel, que visitaremos em maior detalhe na sequência deste artigo.
O nocaute do ano. Agripino Maia, atual senador da republica pelo PFL (ou Demo ) e ex-prefeito bionico durante a ditadura militar, pergunta a Ministra Dilma Roussef se ela mentiria ali na comissao parlamentar como ja havia afirmado que havia mentido durante a tortura, quando fora presa por lutar contra o regime de excessao.
Acho que a oposicao precisa de mais lideres como Agripino Maia, que, nao bastando terem apoiado o regime militar pra garantir os privilegios que infelizmente mantem ate hoje, ainda questionam os opositores da ditadura por terem mentido enquanto eram torturados.
Acho que com 1 minuto de choque eletrico, ou 2 mergulhadas no pau de arara, Agripino entregaria ate a mae…
Este é um dos argumentos maternos para que os filhos deixem os pratos limpos. Ele funciona até a idade em que o filho, esperto, pergunta à mãe se ela vai enviar a comida que sobrou no prato para os famintos.
Brincadeiras a parte, hoje uma notícia colocou as coisas em perspectiva (pelo menos para mim). Os britânicos despediçam (jogam no lixo mesmo) o equivalente a 10 bilhões de libras esterlinas (mais ou menos R$ 34 bi) por ano em comida. Mesmo descartando o status quo político-econômico do planeta, essa notícia mostra que a sociedade britânica carece de bom senso: não basta ser rico enquanto outros passam fome, também é preciso desperdiçar enquanto os outros passam fome.
Acho que esse desperdício não é idiosincrasia da indústria alimentícia: é típico da cultura e virtude do próprio sistema vigente. Coisas têm de ser vendidas, e se vendê-las ao ponto do desperdício é mais lucrativo, que seja. Me lembra Homer Simpson demonstrando toda a sua estupidez ao consumir um produto horrível em grandes quantidades, só porque era muito barato.
Acho que todos já ficamos um pouco chateados por querer apenas um Big Mac e um refri pequeno, mas descobrir que um Número Um sai mais em conta. O truque é distorcer os preços para que seja mal negócio comprar apenas o necessário, ao mesmo tempo em que se gera uma sensação de abundância, ao fazer o cliente acreditar que vai levar mais pelo mesmo preço. É uma geração artificial de demanda. O truque é usado com sucesso no varejo aqui no Reino Unido. Você quer comprar um frango, mas se você comprar um, ganha outro de graça. Não importa se você vai comer o outro frango ou não, se você é economicamente racional você vai levar os dois (e por aqui é raro as pessoas terem freezer ou mesmo um congelador grande, então vai acabar virando lixo mesmo). Pode ser que seja só o meu pensamento, mas 2 por 1 é estratégia de fim de feira. Se dois frangos valem 10, um frango tem que valer 5. Exceto no fim da feira, quando ficar com o produto que não será vendido não é razoável para o vendedor. Ora, todos os grandes mercados aqui vivem do “Dois por um”. Será que todos eles consistentemente erram ao dimensionar seus estoques ? Será que todos eles sobre-estimam a demanda? Ou será que todos eles lucram com a falta de alternativa e do Homer Simpsom em cada um de nós?